De Bruxelas a Glasgow, o INESC TEC reforçou as novidades de interoperabilidade e portabilidade de modelos, serviços, processos e dados associados aos gémeos digitais do oceano. Tanto no EDITO Digital Ocean Forum, como no AGU Ocean Sciences Meeting 2026, os resultados do projeto Iliad ganharam um natural destaque sob a ambição de criação de um digital twin dos mares europeus.
A recente iniciativa OceanEye, anunciada pela União Europeia, sublinha uma visão comunitária para o oceano: o fomento de uma cooperação estreita para a observação e proteção dos mares europeus. Este empreendimento assenta em vários esforços já existentes na UE, incluindo a plataforma EDITO – European Digital Twin Ocean, que, tal como a designação indica, visa agregar dados, modelos e serviços para a criação de um gémeo digital do oceano a nível europeu.
Nesse sentido, os resultados e contributos do projeto Iliad – no qual o INESC TEC teve um papel ativo – dão força a este esforço coletivo, sobretudo no que toca à necessidade de interoperabilidade entre os diversos digital twins do espaço marítimo à escala mundial. Recentemente, o Instituto teve a oportunidade de apresentar e discutir os desenvolvimentos associados a este projeto europeu em dois eventos de relevância internacional para as ciências oceânicas e a digitalização dos mares: o EDITO Digital Ocean Forum, em Bruxelas, Bélgica, e a AGU Ocean Sciences Meeting 2026, em Glasgow, Reino Unido.


Marco Amaro Oliveira, investigador do INESC TEC envolvido no projeto, sublinha que o Iliad teve como objetivo promover “uma arquitetura federada e distribuída de digital twins, possibilitando a cooperação entre gémeos digitais locais”, numa lógica de partilha soberana de dados, modelos e aplicações interoperáveis.
Este tipo de arquitetura permite que os gémeos digitais respondam não só a questões sobre o estado atual (What now?), histórico (What in the past?), previsões e simulações (What future? e What if?) sobre o mar, mas também que possam interagir com outros digital twins (What else?), acedendo a dados e modelos externos que podem influenciar ou ser influenciados pelos cenários analisados.
Marco Amaro Oliveira explica ainda que, num âmbito complementar ao da plataforma EDITO, o Iliad pressupõe que “os gémeos digitais locais possam ser geridos por organizações públicas ou privadas que pretendam manter a soberania sobre os seus dados e serviços”.
No projeto Iliad, o INESC TEC foi responsável, entre outras tarefas, pela definição da arquitetura de suporte à interoperabilidade de processos e serviços entre aplicações e sistemas associados à digitalização dos oceanos. Como salienta o investigador, os resultados do Iliad poderão ter um papel relevante no “apoio ao deploy [instalação] dos processos [relativos à construção de gémeos digitais] no próprio EDITO”.
Aliás, “a simplificação dos fluxos associados à instalação dos processos e aplicações foi apresentada como uma das principais prioridades nos desafios para a melhoria do ambiente aplicacional do EDITO. A arquitetura resultante do projeto Iliad possibilita à equipa do INESC TEC efetuar a instalação de novos processos com apenas ‘um clique’”, simplificando, desta forma, o processo de onboarding nesta plataforma europeia.
A exploração da interoperabilidade dos gémeos digitais surgiu também do próprio ecossistema proporcionado pelo EDITO, alimentando uma relação que Marco Amaro Oliveira descreve como simbiótica: “procurámos usufruir do que estava a ser disponibilizado no EDITO, mas também influenciar, na medida do possível, a definição da arquitetura com os resultados que, à data, tínhamos alcançado no projeto Iliad – como, por exemplo, no que concerne à interoperabilidade, técnica e semântica, de processos e dados”.
Alguns dos resultados alcançados pelo projeto Iliad refletem precisamente esta colaboração. Segundo o investigador do INESC TEC, os contributos da iniciativa traduzem-se nos “múltiplos processos e aplicações de gémeos digitais que o projeto disponibilizou na infraestrutura europeia EDITO e que podem atualmente ser executadas ‘como um serviço’”.
Da disponibilização à execução de processos: a visão do INESC TEC
No contexto da arquitetura federada de gémeos digitais promovida pelo Iliad, uma das prioridades passou por facilitar a integração, a disponibilização e a execução de modelos em diferentes infraestruturas digitais.
Foi neste âmbito que surgiram serviços como o APR – Application Package Registry – e o APK2EDITO, desenvolvidos pelo INESC TEC, e concebidos para apoiar e simplificar estas atividades.
A funcionalidade do APKG2EDITO permite que, por exemplo, “um digital twin a operar na infraestrutura do INESC TEC, completamente autónomo do EDITO, instale um determinado modelo nessa plataforma e recorra à mesma para executar. Posteriormente, é possível importar os resultados da execução para o gémeo digital”, ilustra Marco Amaro Oliveira.
Para apoiar e agilizar este processo cooperativo, foi desenvolvida, no âmbito do projeto, a plataforma de registo APR, definida como um catálogo para processos e modelos associados aos gémeos digitais. Neste contexto, torna-se essencial garantir que não sejam apenas acessíveis através de ações orientadas por utilizadores humanos, mas também interpretáveis e utilizáveis por agentes de software.
Alinhado com os princípios FAIR – Findable, Accessible, Interoperable, and Reusable (Encontrável, Acessível, Interoperável e Reutilizável, numa possível tradução para português) –, o projeto Iliad procurou assegurar que estes recursos dispunham de descrições estruturadas legíveis por máquina (machine-readable), permitindo não só identificar “o que são” – metadados e finalidade -, mas também “como podem ser utilizados”, respeitante a condições de acesso, integração e execução.
Esta capacidade de interpretação e execução automática por máquina (machine-actionability) permite que os sistemas descubram, avaliem e reutilizem modelos de forma autónoma, à semelhança do que faria um utilizador humano, mas à escala e velocidade exigidas por ecossistemas distribuídos de gémeos digitais.
Adicionalmente, “o APR viabiliza a existência de um sistema do género ‘Ciência Aberta’, no qual o modelo pode ser publicado, ficar associado a um identificador persistente único e outros metadados relevantes, suportando as funcionalidades descritas acima”, aponta Marco Amaro Oliveira.

A plataforma APR baseia-se em tecnologia open-source e em normas abertas como padrão de pesquisa e acesso a modelos. Como indica o investigador, “esta abordagem foi baseada em API records [registos] da OGC – Open Geospatial Consortium e nas boas práticas deste consórcio para contentorizar e descrever aplicações de observação da Terra – Earth Observation Application Packaging”.
“Neste momento, os resultados alcançados estão a ser utilizados para fornecer contributos à comunidade OGC, influenciando a evolução das suas normas e boas práticas. Estes contributos estão igualmente a ser apresentados no âmbito da IEEE [Instituto de Engenheiros Eletrotécnicos e Eletrónicos], através da participação de elementos da equipa no IEEE-IC [Digital Twin of the Earth – Tools and Resources for Interoperable Development and Operations] e na definição de uma prática recomendada para o desenvolvimento de gémeos digitais da Terra – através da iniciativa IEEE P3501.”
Marketplace e academia: a partilha de conhecimento sobre o oceano virtual
Um dos principais resultados do projeto passa também pela disponibilização do Marketplace Iliad – uma plataforma que já está “disponível online e que reúne contributos desenvolvidos pelos parceiros do projeto para esta arquitetura distribuída e federada de gémeos digitais”, sublinha Marco Amaro Oliveira.
“Tivemos vários contributos de diversos parceiros, não só ao nível do desenvolvimento de novas tecnologias, mas também ao nível de modelos, ao nível de dados, e de novos digital twins, que estão disponibilizados na plataforma.” Segundo o investigador do INESC TEC, a ideia é que, seja possível “encontrar e ter acesso ao que foi desenvolvido e como é que foi aplicado”.
Para além desta infraestrutura digital, o projeto promoveu ainda a Iliad Academy, que incluiu diversas iniciativas de formação, como webinars e Escolas de Verão: “Tivemos duas Summer Schools, com disponibilização dos conteúdos destas ações de formação através desta plataforma online”.
Após a conclusão do projeto, alguns dos parceiros reuniram-se para colaborar num “epílogo”. Com os resultados do Iliad, criaram e demonstraram um digital twin para as Áreas Marítimas Protegidas do Reino Unido. “Neste momento, e já integrado no EDITO, temos um serviço para classificação, análise e simulação de cenários What If? [E Se?] das MPAs – Maritime Protected Areas – do Reino Unido onde a utilização do OpenDrift [software de modelação de trajetórias de objetos ou substâncias à deriva no oceano] possibilita visualizar potenciais impactos entre as diferentes áreas protegidas desta região”, remata o investigador do INESC TEC.