A Economia do Mar em Portugal encontra-se num momento decisivo. A capacidade de transformar conhecimento em inovação e produção irá determinar o seu futuro e a aquacultura pode assumir-se como um dos seus pilares mais promissores. Perante a crescente importância da produção sustentável de proteína azul, o desafio passa por criar as condições certas para transformar esse potencial em crescimento sustentado, competitividade e valor económico.
Os dados disponíveis ajudam a enquadrar a dimensão do desafio e da oportunidade. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), as vendas da aquacultura em Portugal geraram cerca de 224 milhões de euros em 2024, seguindo uma tendência de crescimento significativo nos últimos anos. Porém, o país mantém uma forte dependência externa: igualmente em 2024, as importações globais de produtos relacionados com a pesca alcançaram os 2,7milmilhões de euros, ou seja, praticamente o dobro das exportações, a rondar os 1,45 milmilhões de euros.
A aquacultura deve, por isso, ser encarada como um setor estratégico para o crescimento da Economia Azul e da autonomia económica portuguesa. Persistem, no entanto, desafios estruturais relevantes: processos de licenciamento complexos, limitação de espaço para novas unidades de produção, custos energéticos e logísticos, dificuldade em atrair investimento e necessidade de inovação tecnológica. A estes juntam-se desafios operacionais como a eficiência na alimentação, a avaliação automatizada da biomassa, a robustez física das estruturas offshore e respetiva inspeção eficaz, a monitorização remota, a gestão de dados, a saúde e o bem-estar animal e a diversificação de espécies.
É neste contexto que a tecnologia assume um papel central. A digitalização, a inteligência artificial e a Internet das Coisas permitem desenvolver soluções baseadas em sensores, visão artificial, modelos preditivos, rastreabilidade, automação e sistemas de apoio à decisão. Estas ferramentas são essenciais para aumentar a produtividade, melhorar a sustentabilidade, reforçar a segurança operacional e permitir uma gestão mais eficiente e informada das explorações aquícolas. O INESCTEC.OCEAN conta já com diversas destas tecnologias no seu portfólio e deve assumir aqui um papel transformador, como produtor de conhecimento e inovação, bem como de desenvolvimento do mercado, capaz de ligar ciência, tecnologia, indústria e financiamento.
Foi com este objetivo que, no passado mês de fevereiro, a equipa do INESCTEC.OCEAN acompanhou a visita do Secretário de Estado das Pescas e do Mar, Salvador Malheiro, ao SINTEF Ocean, em Trondheim, Noruega, a convite da Embaixada da Noruega em Portugal. Este foi mais um passo da colaboração entre o INESC TEC e o SINTEF, que dinamiza um dos ecossistemas que melhor tem sabido transformar ciência e tecnologia em escala produtiva para o oceano.
A missão centrou-se na investigação e inovação para a aquacultura, incluindo visitas a parceiros de referência e demonstração de soluções tecnológicas em ambiente real. Foi realçada também a necessidade da criação de instrumentos de financiamento público específicos que sustentem, de forma estruturada, a colaboração bilateral entre Portugal e a Noruega, permitindo transformar ciência em programas de inovação com continuidade, escala e impacto no setor da aquacultura.
O INESCTEC.OCEAN tem vindo também a reforçar a sua ligação ao setor através da colaboração com a APA – Associação Portuguesa de Aquacultores, contribuindo para uma análise mais próxima das necessidades reais da indústria. Esta articulação tem tido continuidade e iniciou-se de forma mais expressiva no Business2Sea, onde o INESCTEC.OCEAN dinamizou uma sessão dedicada à aquacultura e que reuniu o SINTEF Ocean, a APA e três produtores nacionais de referência, promovendo um diálogo direto entre investigação, tecnologia e operação no terreno.
O futuro da aquacultura portuguesa constrói-se com mais inovação tecnológica, mais colaboração e maior capacidade de transformar desafios em soluções com escala. O INESCTEC.OCEAN tem um papel fundamental neste caminho para uma Economia Azul mais forte, competitiva e sustentável.
Vasco Figueiredo Teles, Business Developer do INESCTEC.OCEAN e Gestor Sénior de Tecnologias Digitais do INESC TEC