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Dados, interoperabilidade e cooperação: como é que a Inteligência Artificial pode contribuir para um oceano sustentável?

Dados, interoperabilidade e cooperação: como é que a Inteligência Artificial pode contribuir para um oceano sustentável?

O INESC TEC participou na mais recente edição do evento Blue Wink-E, dedicado à Inteligência Artificial e o futuro dos oceanos. João Claro, Presidente e CEO do Instituto, foi um dos convidados na discussão sobre “IA e o Mar: Estratégias para Escalar a Inovação Azul”.

Desde modelos preditivos à automação na recolha de dados, do laboratório ao mundo real, a Inteligência Artificial (IA) tem protagonizado uma mudança profunda na forma como trabalhamos, na forma como criamos, na forma como vivemos. No prisma da Economia Azul, as tecnologias e processos associados à IA têm transformado diversos eixos de ação, como a monitorização dos oceanos, a gestão dos recursos marinhos, o fomento da inovação e a decisão sobre investimentos estratégicos.

Contudo, em contexto marítimo, a passagem de capacidade técnica a utilização continuada de IA depende de condições particularmente exigentes: dados dispersos, sistemas heterogéneos, múltiplas escalas de observação e contextos operacionais marcados pela incerteza.

É sob esta premissa que o INESC TEC participou na conferência Blue Wink-E, organizada pelo B2E Blue Bioeconomy CoLAB, cuja edição de 2026 se centrou na forma como a Inteligência Artificial pode contribuir para a preservação e gestão do oceano do futuro. No Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, o evento uniu academia, investigação, indústria e empresas, numa visão holística da cadeia de valor azul.

Atualmente, a IA já cobre áreas importantes relativamente à exploração – comercial e científica – dos oceanos: na deteção de pesca ilegal, na construção de modelos preditivos de riscos de erosão costeira, na deteção atempada de anomalias que provoquem o branqueamento de corais, ou mesmo na identificação de espécies e desenvolvimento acelerado de biotecnologia marinha.

Logo, não é com surpresa que as estimativas da Grand Review Research apontem para um crescimento galopante do mercado da Inteligência Artificial Marítima a nível mundial. Em 2024, o valor deste setor rondava os 4,13 mil milhões de euros, esperando-se que cresça 40,6% até 2030, alcançando a marca dos 5,8 mil milhões de euros.

No entanto, o uso irresponsável desta ferramenta também pode gerar externalidades negativas e indesejadas. Em 2024, de acordo com a Agência Internacional de Energia, 1,5% do consumo global de eletricidade teve origem exclusivamente em data centres de IA, valor que a mesma organização prevê que duplique em 2030 (3%). Só em 2023, nos Estados Unidos, estas infraestruturas consumiram mais de 64 mil milhões de litros de água doce – valor que poderá duplicar até 2028.

Além disso, a corrida ao desenvolvimento de tecnologias associadas à Inteligência Artificial tem gerado uma crescente pressão sobre a extração de minerais, como cobalto, lítio e terras raras, nomeadamente no mar profundo – preocupações essas já expressadas pelo INESCTEC.OCEAN, pela voz de Eduardo Silva, Coordenador Científico do Centro de Excelência.

A lição será simples: não basta existir a tecnologia, é preciso promover talento e liderança, capaz de fomentar um uso crítico e responsável destas ferramentas. Conclusões que dão o mote ao painel “IA e o Mar: Estratégias para Escalar a Inovação Azul”, no qual participou João Claro, Presidente e CEO do INESC TEC.

A conversa, moderada por Patrícia Gonçalves, do B2E Blue Bioeconomy CoLAB, contou também com as presenças de Kelwin Fernandes, da NILG.AI, Álvaro Sardinha, do C2EA – Centro de Competência em Economia Azul, e Guilherme Beleza Vaz, da blueOasis.

João Claro começa por realçar que o INESC TEC tem dedicado bastante trabalho de investigação “na vertente dos dados e, naturalmente, nas tecnologias mais fundamentais da Inteligência Artificial”. Contudo, não deixa de sublinhar que o Instituto “trabalha cada vez mais no desenvolvimento de talento e de liderança futura que seja capaz de utilizar estas tecnologias com confiança” e consciência.

A perspetiva apresentada pelo também docente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) incide menos na enumeração de aplicações e mais nas condições necessárias para dar lhes continuidade e escala. Em sistemas oceânicos, a IA depende da articulação entre observação, dados, modelos, sistemas e decisão.

“Quando essa articulação é débil, multiplicam-se demonstrações promissoras, mas a consolidação operacional permanece limitada. Existindo essa base, começam a formar-se capacidades utilizáveis de forma continuada”, explica.

A construção de uma relação saudável e eficiente com a IA deverá ser estabelecida por extensão a outras preocupações caras ao trabalho científico. Ou seja, o uso consciente e eficaz das tecnologias de Inteligência Artificial deverá estar assente numa postura de Ciência Aberta e de estreita cooperação entre entidades das mais diversas naturezas.

“Há uma coisa já natural no INESC TEC: uma vertente de dados abertos no apoio à decisão. É um pilar da política europeia para a área da ciência. Portanto, nós, cada vez mais, naquilo que fazemos, temos esta preocupação de sistematizar bem os dados e de os providenciar de forma aberta”, explica João Claro.

A questão é, em simultâneo, técnica e institucional. Em sistemas marinhos, os dados tendem a ser “descontínuos, heterogéneos e distribuídos por diferentes plataformas, geografias e escalas”. Recolher mais informação é apenas parte do desafio: “a outra parte reside na sua organização, combinação e reutilização em condições de consistência e confiança”, frisa o Presidente do Instituto.

Integrar a IA: os exemplos de Iliad e Predico

Neste enquadramento, a abertura de dados, a cooperação entre organizações e a interoperabilidade passam a integrar a própria infraestrutura necessária ao funcionamento da Inteligência Artificial.

De modo a reforçar esta visão, João Claro dá exemplos de ecossistemas de dados e de Inteligência Artificial na área da energia – como é o caso da plataforma colaborativa Predico, dedicada à previsão de produção de renováveis.

“Nós já temos um mercado de dados – um mercado de Inteligência Artificial – na área da energia na Bélgica, cuja solução junta empresas num incentivo para as mesmas partilharem dados e extraírem daí algum benefício, gerando impacto [económico] no seu negócio. A lógica é transponível: quando os dados circulam em condições de confiança e utilidade partilhada, os modelos ganham escala e aplicabilidade”, sublinha o Presidente do INESC TEC.

Focado mais na Economia Azul, João Claro aponta também aos gémeos digitais do oceano. Dada a “complexidade do sistema oceânico, os dados que existem são, de certa forma, esparsos e fragmentados”, acabando por “haver vários digital twins com diferentes dimensões, diferentes geografias”.

A questão “já não se resume a observar melhor”: “coloca-se, antes, ao nível da articulação entre representações distintas do sistema oceânico, construídas para geografias, escalas e finalidades diversas”, afirma.

Dadas essas dificuldades, o presidente do INESC TEC salienta a necessidade um “trabalho em conjunto para agregar e articular os vários digital twins, no qual a Inteligência Artificial desempenha um grande papel”.

É o caso de projetos como o Iliad, que contou com o contributo direto do Instituto para o desenvolvimento de modelos que permitam a interoperabilidade entre dados, processos, aplicações e sistemas associados a distintos gémeos digitais do oceano na Europa.

Abordando o caso do INESCTEC.OCEAN e as aplicações para o mar, o CEO do INESC TEC reforça o “grau de maturidade já alcançado em áreas como “veículos autónomos, a robótica para missões no mar, a sensorização e a perceção”. “O trabalho incide, cada vez mais, na integração entre dados, modelos e operação, em ambientes exigentes e sob condições reais.”

Para João Claro, é natural que esta experiência com a IA catalise a aposta do Centro de Excelência em “tecnologias emergentes e no seu cruzamento com cadeias de valor emergentes” na Economia Azul. O presidente do INESC TEC fala de um “desafio não ao quadrado, mas ao cubo”, uma vez que, em muitos casos, “não está apenas em causa o desenvolvimento de novas capacidades tecnológicas”. “Estão também a formação de novos mercados, novos processos de coordenação e os arranjos de cooperação através dos quais essas capacidades poderão ganhar escala e utilização”.

No entanto, João Claro está confiante de que a Inteligência Artificial e o trabalho colaborativo continuado “poderão ajudar na exploração de setores e tecnologias com grande potencial”.

A participação do INESC TEC no Blue Wink-E deixa, assim, um retrato claro da atual discussão sobre a relação entre a Inteligência Artificial e a Economia Azul. A IA já tem presença efetiva no domínio do oceano, mas o fator determinante reside, agora, na qualidade das ligações que a tornam utilizável: dados estruturados, cooperação entre entidades, interoperabilidade entre sistemas, integração com modelos e capacidade de sustentar a decisão com continuidade e confiança.

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