Num contexto de incerteza e de águas agitadas pelas alterações climáticas, pela urgência da transição energética e por pressões geopolíticas, a Europa volta-se para o oceano em busca de respostas. Debruçado sobre o Atlântico, Portugal avança com planos para restaurar a saúde do oceano através da investigação e inovação, do envolvimento dos cidadãos e do investimento azul.
Quando o El Niño irrompeu em meados de 2023, tudo correu como previsto: a subida das temperaturas oceânicas provocou quebras nas colheitas, ameaças de escassez alimentar, cheias e secas, com efeitos generalizados na vida marinha ao longo da costa do Pacífico. No entanto, os efeitos da La Niña — o fenómeno meteorológico natural e cíclico que constitui a contraparte do El Niño, caracterizado por uma descida das temperaturas no Pacífico — ficaram aquém do esperado. O resultado? Registámos o janeiro mais quente de sempre, por uma margem significativa.
Segundo os especialistas em clima do Copernicus, janeiro de 2025 foi o mais quente alguma vez registado a nível global, «apesar de uma La Niña emergente». Na sequência desta notícia, o Programa de Observação da Terra da União Europeia afirmou que irá monitorizar de perto as temperaturas oceânicas: estas vastas massas de água absorvem cerca de 90% do excesso de calor retido pelos gases com efeito de estufa.
Uma das formas de compreender o que se passa nos oceanos é… olhar para baixo da superfície, onde poderão estar as respostas a alguns dos desafios mais prementes da Europa. Mas a questão mantém-se: poderão a Economia Azul e os sectores emergentes ajudar a mitigar as alterações climáticas?
Uma coisa é certa: os avanços científicos e tecnológicos desempenharão um papel essencial no futuro dos nossos oceanos, respondendo simultaneamente aos desafios ambientais e desenvolvendo actividades económicas de base oceânica. Um ambiente marinho saudável sustenta as pescas, promove o turismo e contribui para a regulação climática, tornando essencial a prioridade dada aos esforços de conservação.
«Abordar o oceano a partir de diferentes ângulos abre caminho para compreender como pode ser percepcionado e explorado e, ao mesmo tempo, proteger os seus ecossistemas, preservando toda a fauna e flora, garantindo que as actividades humanas podem coexistir com um impacto ambiental mínimo»
— José Manuel Mendonça, ex-Presidente do Conselho de Administração do INESC TEC
O compromisso da Europa em fazer do oceano um aliado contra as alterações climáticas passa por expandir a energia eólica offshore e as energias renováveis oceânicas, proteger a vida marinha, promover o transporte marítimo de baixas emissões e desenvolver portos mais verdes. Para o efeito, a Comissão Europeia lançou a «Missão Restaurar o Nosso Oceano e as Nossas Águas até 2030», apoiada por 0,5 mil milhões de euros do Horizonte Europa e outros mecanismos de financiamento. Inspirada no Pacto Ecológico Europeu, esta iniciativa visa impulsionar os esforços de restauro ambiental.
Um país do mar
À porta de entrada atlântica da Europa, Portugal posiciona-se como polo e actor-chave na inovação offshore e na exploração oceânica. «O nosso território reúne condições únicas para o desenvolvimento da Economia Azul…»
Portugal detém uma das maiores zonas económicas exclusivas do mundo — a quinta maior da Europa — abrangendo mais de 1,7 milhões de quilómetros quadrados (representando 95% do território nacional). O triângulo marítimo entre Portugal continental e os arquipélagos da Madeira e dos Açores corresponde a 48% de todas as águas marinhas ligadas ao continente europeu.
Mas é difícil proteger aquilo que não compreendemos plenamente — cerca de 80% dos nossos oceanos permanecem por explorar. «Ir mais fundo, ficar mais tempo» é a abordagem pioneira do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) na exploração oceânica.
Ao longo dos últimos quinze anos, a instituição desenvolveu múltiplos projectos neste sector, procurando lançar luz e captar um retrato do que existe abaixo da superfície. A investigação relacionada com o oceano representa cerca de 10% da actividade do Instituto. Nos últimos seis anos, o financiamento de projectos de I&D ligados ao oceano aumentou de 4 M€/ano (2017) para mais de 13,3 M€/ano (2022), com uma equipa de mais de 70 investigadores. O INESC TEC lidera ainda grandes infraestruturas tecnológicas como o tanque oceânico Leixões BLUE HUB, a CEO – Companhia da Energia Oceânica, a plataforma de testes de Energias Renováveis Marinhas no norte de Portugal e o TEC4Sea, que inclui o navio de investigação Mar Profundo e integra o roteiro nacional de infraestruturas científicas.
Norte e Sul em «teaming»
Para fazer avançar o conhecimento e fomentar a inovação, a Europa incentiva os Estados-membros a conjugarem esforços, criando novos centros de excelência com o apoio de instituições parceiras de referência da UE ou de países associados, para responder a desafios societais fundamentais. Onde a terra encontra o mar, Portugal e a Noruega unem forças para desenvolver sectores marítimos emergentes, como as energias renováveis offshore, e responder aos desafios complexos da Economia Azul.
Este ano marca um marco significativo: o lançamento do INESCTEC.OCEAN, o primeiro Centro de Excelência português para a investigação oceânica. O INESC TEC e o SINTEF OCEAN — o principal centro norueguês de I&D oceânica e parceiro do projecto — assinaram um Memorando de Entendimento para criar uma rede de infraestruturas em terra e no mar destinadas a desenvolver e testar tecnologias, modernizar infraestruturas existentes e criar novos espaços de experimentação.
Liderado pelo INESC TEC, o objectivo é estabelecer um centro sustentável e autónomo nos próximos seis anos. Para tal, um consórcio irá colaborar no avanço do conhecimento em engenharia oceânica, no desenvolvimento de laboratórios e locais de ensaio, na valorização das competências científicas em engenharia oceânica, na formação de investigadores e na resposta às necessidades da indústria.
«A ideia é criar brainware e aumentar o conhecimento em engenharia oceânica e a capacidade de investigação, integrando sempre a academia para impulsionar a inovação nas áreas ligadas à engenharia oceânica. Temos de trabalhar em estreita ligação com universidades e empresas, colaborar com todas as partes interessadas e compreender as necessidades e os desafios dos diferentes mercados, respondendo-lhes»
— José Manuel Mendonça, responsável pela coordenação de alto nível da candidatura INESCTEC.OCEAN
O mar pode aquecer as nossas casas
A monitorização do mar profundo, a avaliação do impacto ambiental das actividades humanas e a exploração do potencial de Portugal na aquacultura offshore são alguns dos primeiros passos desta cooperação entre as duas instituições de I&D. A longo prazo, o plano do INESCTEC.OCEAN passa por acelerar a inovação — reduzindo o tempo entre a prototipagem e a aplicação industrial — e dar resposta a questões prementes. Entre elas, como a combinação de offshore e hidrogénio pode beneficiar as empresas, como os gémeos digitais podem transformar a modelação e a compreensão dos sistemas oceânicos, como desenvolver soluções inovadoras e ecológicas para estruturas marinhas offshore e como transformar a transmissão de dados sem fios.
O objectivo é que o INESCTEC.OCEAN se torne um líder internacional em engenharia oceânica, capitalizando a extensa costa portuguesa. O desenvolvimento de um cluster de eólica offshore pode ser um «passo decisivo no reforço das infraestruturas de energia renovável de Portugal e do seu papel na transição para energia limpa na Europa», explicou José Manuel Mendonça.
«As alterações climáticas e as estratégias de zero carbono em todo o mundo estão a orientar a transição energética para soluções baseadas em energias renováveis — incluindo vectores de energia verde — sendo as energias renováveis offshore um dos mercados com maior potencial de crescimento, a par da exploração oceânica», acrescentou.
A experiência do SINTEF será crucial para esta iniciativa. A liderança da Noruega em tecnologia marinha e investigação biomarinha foi destacada por Arne Fredheim, que representou o SINTEF no Porto na assinatura do Memorando:
«Esta jornada dá continuidade a mais de mil anos de colaboração e comércio entre os dois países. Trabalhando em conjunto no domínio oceânico, estou confiante de que teremos sucesso neste esforço e continuaremos a reforçar esta parceria através de mais projectos conjuntos, discussões construtivas e iniciativas colaborativas».
Resultante de uma candidatura ao concurso Teaming for Excellence do programa Widening do Horizonte Europa, com um investimento europeu e nacional combinado superior a 30 M€, o INESCTEC.OCEAN funcionará entre 2025 e 2031. Antes de largar amarras por conta própria, o INESC TEC irá incubar esta iniciativa de investigação. Além do INESC TEC e do SINTEF Ocean, o projecto conta também com o Fórum Oceano, o cluster português da Economia Azul, e a APDL — Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo.