Em terra de pescadores, quem tem rede é rei. Mas quem a perdeu tem agora forma de a reaver, graças ao trabalho desenvolvido na iniciativa NETTAG+. Findo o período de projeto, e depois de várias demonstrações com o veículo autónomo IRIS, a iniciativa acaba de vencer o “Atlantic-WestMED Project Award 2026”.
Segundo a World Wildlife Fund (WWF), estima-se que pelo menos 10% de todo o lixo marinho seja proveniente da atividade piscatória, nomeadamente material “fantasma”: isto é, equipamento de pesca abandonado, perdido, ou descartado, como redes, fios e armadilhas. Só na União Europeia, este valor sobe para 27%, de acordo com um estudo apresentado pela Comissão Europeia.
Perante uma ameaça real à preservação dos ecossistemas marinhos e à própria atividade piscatória, cientistas, engenheiros e pescadores uniram esforços no desenvolvimento de soluções para “prevenir, evitar e mitigar” a proliferação deste tipo de lixo marinho.
Este trabalho conjunto entre parceiros – entre os quais o INESC TEC – culmina agora com a conquista de um galardão: o Atlantic-WestMED Project Award 2026, na categoria de Biodiversidade, Oceanos Saudáveis e Costas Resilientes. Este reconhecimento distingue os contributos do projeto NETTAG+ no combate ao lixo marinho proveniente de atividade piscatória nas costas do Atlântico e do Mediterrânico.
Ao combinar tecnologias inovadoras, promover atividades de sensibilização e colaborar de forma próxima com as comunidades de pescadores, a iniciativa foi capaz de desenvolver soluções práticas para prevenir, mitigar e evitar a perda, abandono e descarte de equipamento de pesca.
A equipa do NETTAG+ reforça que “esta distinção pertence a todo o consórcio e a todos os pescadores e parceiros que partilharam o seu conhecimento e experiência ao longo do projeto”.
Uma demonstração final com os olhos no mar
Ainda antes deste prémio, já o evento final do projeto NETTAG+ havia revelado os resultados de três anos de trabalho entre 15 parceiros de sete países – entre os quais INESC TEC, CIIMAR e a Associação Pró-Maior Segurança dos Homens e do Mar (APMSHM).
A agenda iniciou com um workshop científico no Auditório Municipal de Vila do Conde, no qual Alfredo Martins, investigador do INESC TEC envolvido no projeto, participou em dois painéis de discussão sobre as soluções tecnológicas desenvolvidas.
Já no porto de pesca da Póvoa de Varzim, a APMSHM acolheu uma demonstração final de uma missão de localização e recolha de uma arte de pesca “perdida”, que não só recorreu ao veículo autónomo IRIS, como ao navio de investigação do INESC TEC, “Mar Profundo”.





Do laboratório ao porto, da ciência à tradição pesqueira
Depois do primeiro projeto NETTAG, a “sequela”, NETTAG+, deu seguimento ao trabalho desenvolvido, apresentando soluções impactantes para as pescas. Desde ações de formação e sensibilização de comunidades à compilação de recomendações de governação e políticas para a pesca, o projeto foi além da ciência e tecnologia, abarcando as preocupações sociais, económicas e políticas associadas à atividade piscatória.
“As soluções do NETTAG+ incidem não só em tecnologia para minimizar os impactos da pesca, ou mitigar e encontrar artes de pesca pedidas, mas também em ações de promoção do papel dos pescadores como guardiões do mar”, explica Alfredo Martins, investigador sénior do INESC TEC envolvido no projeto, financiado pelo programa Horizonte Europa, da União Europeia.
“Estas tecnologias têm impacto positivo na preservação dos ecossistemas marinhos, pela disponibilização de ferramentas que auxiliam ao mapeamento, deteção e remoção de lixo marinho. Por outro lado, houve uma consciencialização da comunidade piscatória para o seu papel relevante na promoção de um oceano saudável”, salienta o também docente do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP).
Na iniciativa NETTAG+, o INESC TEC esteve diretamente empenhado no desenvolvimento da vertente tecnológica, mais concretamente, de soluções robóticas: como é o caso do veículo autónomo IRIS. Segundo Alfredo Martins, o robô “consegue localizar o material de pesca de duas formas”.
“A primeira é quando é usada para localizar artes de pesca que têm identificadores acústicos de localização, que foram desenvolvidas no âmbito dos projetos NETTAG e NETTAG+.” De acordo com o investigador, as tags – dispositivos de identificação – permitem “marcar as artes de pesca, possibilitando a sua localização posterior”.
Na eventual necessidade de deteção e recolha do material perdido, o veículo autónomo IRIS entra em ação, munido de um “transponder [dispositivo transmissor-recetor] acústico, que permite interrogar uma dada tag acústica codificada”. “Com a resposta desta, que só responde ao código emitido pela IRIS, consegue-se determinar a distância à tag. Através de múltiplas interrogações a partir de pontos diferentes, a IRIS consegue determinar a localização precisa da tag” e, consequentemente, da rede de pesca identificada.
Já a segunda alternativa preconiza cenários em que a arte de pesca perdida não tem identificadores acústicos, o que é “o caso mais frequente”, diz Alfredo Martins. Nesses casos, a IRIS dispõe de um “sonar de imagem que produz uma imagem acústica do ambiente”: “Essa imagem é processada por algoritmos de inteligência artificial para detetar e identificar as artes de pesca”, explica o investigador do INESC TEC.
Em ambas as situações, a embarcação de pesca desloca-se até ao ponto designado para a recolha do material perdido. Nesse sentido, a articulação com os pescadores e demais profissionais deste setor de atividade torna-se essencial.
Alfredo Martins enfatiza que as soluções tecnológicas apresentadas pela equipa do NETTAG+ “foram recebidas com enorme aceitação”. “No âmbito do projeto, foram realizadas missões de teste e validação com a participação dos pescadores em Portugal, na Croácia, em Itália e em Espanha”, aponta.
Atualmente, os sistemas de deteção acústica desenvolvidos “são já fundamentais na identificação de recursos de pesca e no auxílio à atividade piscatória, nomeadamente na navegação e operação de embarcações”.
Segundo Alfredo Martins, algumas das soluções “já estão disponíveis comercialmente, como por exemplo, as tags acústicas”. Outras “ainda carecem de processos de industrialização e de transferência de tecnologia”, os quais estão a ser equacionados pela equipa do projeto neste momento.