O habitual programa de Estágios de Verão do INESC TEC contou com três estudantes acolhidos pelo Centro de Excelência em Investigação e Engenharia do Oceano. Durante 1 mês, os estudantes que participaram tiveram a oportunidade de trabalhar num ambiente de investigação e de aprofundar bases fundamentais da engenharia oceânica.
Ao longo do mês de julho, Vasco, Constança e Dorina trocaram uma “aliciante” pausa de férias por quatro semanas de aprendizagem contínua no INESCTEC.OCEAN. Ao abrigo dos Estágios de Verão do INESC TEC, os três estudantes de Ensino Superior puderam “desenvolver capacidades técnicas e metodologias essenciais de suporte a projetos de energias renováveis offshore e monitorização oceânica, com particular foco na plataforma de testes da Aguçadoura”, explica Diogo Neves.
A par de Dallán Friel, os dois investigadores do INESC TEC assumiram o papel de mentores do estágio desenvolvido no Centro de Excelência em Investigação e Engenharia do Oceano.
“O principal objetivo era proporcionar uma experiência prática em vários tópicos da indústria e da investigação”, sublinha Dallán. “Queríamos que pusessem as ‘mãos na massa’, usando software e metodologias próprios, enquanto desenvolviam conhecimento e competências valiosas para o seu futuro académico e percurso profissional.”
Dado o tempo curto de estágio, o investigador do INESC TEC frisa que a “definição de um objeto de estudo realista e a gestão eficaz de tempo foram essenciais”. “Houve também um esforço significativo em familiarizar os estudantes rapidamente com os seus respetivos tópicos de estudo e software de engenharia a utilizar, encorajando-os a trabalhar autonomamente, a colocar questões e a interagir com outros investigadores”, enfatiza Dallán Friel.
Diogo Neves concorda que o “duelo” entre tempo e a “elevada curva de aprendizagem” foi desafiante, dado que os temas abordados, tais como “dados meteoceanográficos, hidrodinâmica de corpos flutuantes e dinâmica de amarrações são muito especializados e raramente aprofundados nas licenciaturas”.
Segundo o investigador, ao mesmo tempo que se “dotava os estagiários com bases teóricas sólidas”, era preciso garantir que atingiam os objetivos e “produziam resultados valiosos no curto período de verão”.
Ao longo desta experiência, Diogo Neves aponta que o acompanhamento visava providenciar aos alunos uma “integração profissional num ambiente multicultural”, pautado pelo “rigor metodológico, autonomia e ligação a projetos reais”.
De acordo com o investigador, era essencial “incentivar os estudantes a compreender a física dos problemas e criar rotinas de validação de dados e/ou modelos, em vez de apenas executarem software”.
Por outro lado, sob um ecossistema “colaborativo”, Diogo Neves diz terem procurado “garantir que o trabalho desenvolvido não era um mero exercício académico, mas sim uma contribuição direta e palpável para os projetos do grupo”.
A plataforma de testes da Aguçadoura como ambiente de trabalho digital
Os três estudantes abordaram tópicos diferentes, mas estrategicamente complementares. Constança Carapuço queria saber mais sobre a análise de dados meteoceanográficos, isto é, informações sobre as características meteorológicas e físicas do mar. Por isso, candidatou-se ao Estágio de Verão: “Queria ganhar experiência prática, perceber se esta é uma área que gostaria de seguir no futuro e avaliar o seu potencial como tema para a minha tese de mestrado”.
Estudante de Mestrado em Engenharia Civil – com especialização em Hidráulica, Recursos Hídricos e Ambiente – na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), Constança focou-se na “Caracterização Meteoceanográfica e Análise de Dados Extremos para Sistemas de Amarração Offshore”.
“O objetivo deste trabalho passou pela recolha e processamento de conjuntos de dados meteoceanográficos de longo-prazo sobre a plataforma de testes da Aguçadoura”, na Póvoa de Varzim, explica a estagiária.
Neste caso, a aluna recorreu a dois datasets com registos dos últimos 50 anos: dados de reanálise ERA5, para as condições de vento e das ondas, e dados SIMAR, para os níveis de água e correntes. No final, pretendia-se uma avaliação preliminar da plataforma de testes da Aguçadoura para “suporte à conceção e dimensionamento de sistemas de amarração”.
“Aprendi a realizar análise de dados, aprofundei os meus conhecimentos em Python e adquiri competências para fazer uma análise preliminar da agitação marítima, algo que antes não dominava”, explica Constança Carapuço.

“Adorei poder ver de perto as tecnologias utilizadas para medições marinhas e conhecer melhor outros tipos de projetos desenvolvidos no Centro [INESCTEC.OCEAN], especialmente na área da robótica”. A aluna afirma ter sido uma “experiência muito enriquecedora e inspiradora”, que certamente reforçou a sua “motivação para seguir uma carreira ligada ao setor marítimo e à engenharia metocean”.
Vasco Carvalho “já conhecia o INESCTEC.OCEAN”, nomeadamente no que respeita à atividade do Centro de Excelência em robótica marinha. “Mais tarde, percebi que também desenvolviam um trabalho crescente em engenharia oceânica. Sendo estudante de Engenharia Naval e Oceânica, o alinhamento não podia ter sido melhor!”, exclama, relativamente àquilo que o motivou a ingressar nos Estágios de Verão do INESC TEC.
Aluno do 2.º ano de licenciatura no Instituto Superior Técnico (IST) da Universidade de Lisboa (UL), Vasco abordou a “Análise do Comportamento de Sistemas Flutuantes e de Amarração”. Mais concretamente, o estudante portimonense realizou um estudo hidrodinâmico no domínio da frequência de uma boia meteoceânica a instalar na plataforma de testes da Aguçadoura.
“Os objetivos principais eram realizar o estudo da convergência de malha para garantir a precisão dos resultados e, de seguida, obter os coeficientes hidrodinâmicos, bem como os RAOs (Response Amplitude Operators) da boia”.
Os RAOs – Operadores de Amplitude de Resposta, em português – são parâmetros de engenharia que descrevem a resposta de estruturas flutuantes a ondas de diferentes frequências. Neste trabalho, foram determinados numericamente, através de uma análise hidrodinâmica no domínio da frequência. Esta abordagem permite prever a movimentação da boia em resposta às ondas em avaliação.
De acordo com Vasco Carvalho, estagiar no INESCTEC.OCEAN providenciou-lhe uma “importante introdução à hidrodinâmica e às interações fluido-estrutura”. “Ao aprender a usar o software DNV HydroD, percebi como funciona a sua abordagem de baixa fidelidade, fundamentados pela Teoria do Potencial e a Discretização por Elementos de Fronteira (BEM)”, complementa.
Em síntese, enquanto a Teoria do Potencial se trata de um ramo da Matemática que estuda as funções harmónicas, o BEM (Boundary Element Method, na sua sigla em inglês) constitui um método numérico de representação da interação entre ondas e a superfície da estrutura flutuante, o qual é amplamente usado na determinação das propriedades hidrodinâmicas necessárias para avaliar o seu comportamento no mar. Ambas as aplicações são frequentes na análise de fenómenos físicos associados à dinâmica de fluidos ou propagação de ondas, por exemplo.
Para Vasco Carvalho, este estágio incentivou-o “ainda mais em seguir um caminho na indústria offshore”: “Adquiri novos conceitos que certamente serão importantes para a minha carreira”.

De Atenas para o Porto, a “forte reputação do INESC TEC” chamou por Dorina Ioannidou. Aluna do 4.º ano de Licenciatura em Engenharia Civil – com especialização em Hidráulica – na Universidade Técnica Nacional de Atenas (NTUA), na Grécia, tem já experiência de trabalho em áreas como Desenho Técnico, Estudos de Performance Energética de Edifícios e Topografia Básica, mas nunca tinha estagiado ou trabalhado fora do país onde nasceu.
“Era algo que considerava fazer no futuro. Queria experienciar, na primeira pessoa, mesmo que por um breve período de tempo, antes de quaisquer decisões definitivas. Candidatei-me também porque esta oportunidade se alinhava com aquilo que procurava. Basicamente, preencheu todos os requisitos para mim”, explica.
Tal como Vasco, o trabalho de Dorina focou-se na “Análise do Comportamento de Sistemas Flutuantes e de Amarração”. Mais concretamente, a aluna estudou o desenvolvimento de uma ferramenta automatizada em Python para a análise e dimensionamento de linhas de amarração de turbinas eólicas flutuantes de 12 MW de potência.
Igualmente aplicado ao caso da plataforma de testes da Aguçadoura, “o objetivo era “executar simulações sob condições realistas de vento, ondulação e correntes”, de modo a “avaliar diferentes configurações de amarração e desenvolver uma solução de amarração preliminar que satisfizesse os critérios de aceitação ULS (Ultimate Limit State [Estado Limite Último, numa possível tradução em português]”, isto é, o ponto máximo a partir do qual são ultrapassados requisitos de segurança de uma estrutura.
A estudante recorreu à modelação RIFLEX, um programa de análise estática e dinâmica de sistemas estruturais marinhos integrado no software SIMA (Simulation Workbench and Model Analysis), uma plataforma dedicada à integração de diferentes modelos de simulação.
“Esta experiência permitiu-me desenvolver uma maior compreensão das dinâmicas associadas às turbinas eólicas flutuantes offshore e às mecânicas dos sistemas de amarração”, salienta Dorina. Para a estagiária, foi não só um “reforço significativo” das suas competências técnicas de modelação computacional e de automação em programação Python, mas também um momento de “crescimento pessoal e profissional”.
“Ensinou-me a trabalhar de forma mais autónoma, abordando problemas que não me eram familiares com confiança”, aponta. Por outro lado, a estudante realça ter reforçado as suas “competências na tomada de decisão e de avaliação em engenharia”, além das suas capacidades para colaborar e comunicar mais claramente no contributo para projetos técnicos.
“Inspirar a próxima geração de investigadores e engenheiros do oceano”
No final, os estagiários agradecem aos mentores, Dallán Friel e Diogo Neves, por uma “experiência valiosa” no INESCTEC.OCEAN. Assim descreve Dorina Ioannidou, que admite ter ficado “genuinamente inspirada pelo ambiente colaborativo”, o qual unia engenheiros e investigadores “altamente empenhados, inteligentes e dedicados”.
“Em simultâneo, eram também bastante amigáveis, acessíveis e acolhedores, especialmente na presença de uma pessoa que veio de um país e de um contexto diferentes.”

Dorina destaca ainda a “imensa sorte em ter o Dallán e o Diogo como orientadores”: “Ambos são investigadores e engenheiros altamente competentes e sabedores, além de serem incrivelmente solidários, pessoas genuinamente espetaculares com quem trabalhar”.
A estudante apreciou “especialmente o equilíbrio mantido entre a orientação, quando necessária, e a independência promovida para tomar decisões e responder a problemas”. “Trabalhar com eles foi um dos aspetos mais importantes deste estágio e ficarei muito feliz se tiver a oportunidade de voltar a trabalhar com eles novamente.”
Já Vasco Carvalho também evidencia a “grande hospitalidade” dos mentores do INESC TEC: “Aprendi intensivamente e senti-me sempre muito apoiado durante todo o processo formativo”. No contacto com o Laboratório de Robótica e Sistemas Autónomos do INESC TEC – uma das infraestruturas de investigação do Instituto -, o estudante revela ter ficado “muito interessado com a diversidade de projetos e protótipos que ali crescem diariamente”.
Como não há duas sem três, Constança Carapuço deixou iguais elogios aos investigadores Diogo Neves e Dallán Friel. A aluna diz que ambos “estiveram sempre disponíveis para ajudar, acompanhando de perto o seu trabalho e sendo extremamente pacientes”. “O seu apoio e encorajamento foram fundamentais para superar as minhas dificuldades ao longo do estágio”, afirma.
E os mentores do INESC TEC? “A experiência foi extremamente gratificante e enriquecedora”, exalta Diogo Neves. “A curiosidade da Constança, a capacidade de automação e de adaptação da Dorina e o rigor analítico do Vasco” foram “motivadores” para o investigador, o qual acredita que a orientação próxima focada e com espaço para a exploração individual permitem “desbloquear um enorme potencial de autonomia e criatividade técnica dos estudantes”.
O contacto com jovens estudantes, como é o caso dos Estágios de Verão do INESC TEC, “é de uma importância estratégica fundamental”, conclui Diogo Neves. De acordo com o investigador, a iniciativa permite “identificar e captar novos talentos nas áreas de engenharia oceânica altamente competitivas e especializadas”.
“Por outro lado, os estagiários trazem energia renovada e novas perspetivas, realizando trabalhos que verdadeiramente expandem a capacidade instalada da equipa”. Segundo Diogo Neves, é uma relação simbiótica: “os alunos têm contacto com desafios reais de investigação aplicada e o INESC TEC fortalece as suas linhas de I&D para projetos futuros”.
Dallán Friel subscreve as palavras do colega, face a uma “experiência bastante positiva”: “Foi satisfatório ver os estudantes desenvolverem confiança e competências técnicas ao longo do mês, enquanto trabalhavam com problemas de engenharia desafiantes”.
Para o investigador, os Estágios de Verão do INESC TEC proporcionam aos estudantes uma “exposição aos desafios reais da investigação e da engenharia, com os quais poderiam não se confrontar durante o curso”. Dallán Friel fala dos benefícios de uma “ligação mais forte entre Academia e indústria”, sobretudo face a uma oportunidade para o INESCTEC.OCEAN “inspirar e ajudar a criar a próxima geração de investigadores e engenheiros do oceano”.