Vivemos um momento conturbado e de grande indefinição quanto ao futuro devido aos diferentes conflitos a nível mundial. O preço dos combustíveis fósseis tem apresentado grande variabilidade com um forte pendor de aumento, o que impacta a subsequente escalada da inflação e do custo de vida. Portugal tem conseguido amortecer os custos energéticos por ter, em tempo útil, apostado no sentido da descarbonização da eletricidade e da independência energética. Temos assistido a preços da energia elétrica em mercado abaixo da média europeia devido às contribuições das produções eólica, solar fotovoltaica e hídrica.
A conjugação destes fatores tem-nos caracterizado como um território apetecível relativamente a novos investimentos com elevada necessidade de energia elétrica, nomeadamente, novas indústrias, centros de dados e inteligência artificial. Simultaneamente, devemos investir na renovação de centros electroprodutores renováveis, sobretudo parques eólicos construídos há mais de 20 anos – garantindo, com isso, um aumento da contribuição renovável. Contudo, não será suficiente para suprir as necessidades que poderão advir de novos investimentos e, consequentemente, garantir o cumprimento das metas de descarbonização.
Ao contrário de muitos países, que veem no offshore potencial de aumento de extração de combustíveis fósseis, nós, a par de congéneres europeus, podemos marcar a diferença através da exploração das energias renováveis marítimas. É um caminho a ser traçado, com custos iniciais elevados, bastante incerteza, mas com uma elevada probabilidade de sucesso – tal como o investimento em fontes de energia renováveis o foi há duas décadas.
Nesse sentido, o INESCTEC.OCEAN é uma iniciativa de elevada importância, pois poderá permitir a mitigação de custos em diversos aspetos relacionados com a instalação de parques de energia offshore. Numa primeira fase, através de investigação e desenvolvimento que permitam a obtenção de ferramentas computacionais para a fase de projeto otimizado dessas novas infraestruturas. Esta etapa permitirá aos investidores compreender a composição ótima de parques multi-tecnologia, o layout ótimo – através de análise multicritério – e a necessidade de adoção de dispositivos adicionais, quer para o cumprimento de códigos de rede, quer para armazenamento de energia.
Numa outra dimensão, o papel do INESCTEC.OCEAN assentará no teste e validação de conceitos à escala real, utilizando, em fases distintas, a infraestrutura do Hub Azul Leixões e, num momento posterior, a plataforma de testes da Aguçadoura. Em ambos os casos, poder-se-ão efetuar testes com protótipos e a sua interligação e integração com diferentes sistemas de acondicionamento e gestão de energia.
Não obstante, o INESCTEC.OCEAN poderá também ser uma plataforma de integração de diferentes atores com valias distintas, necessárias para complementar a cadeia de valor para o desenvolvimento de grandes projetos de energia eólica offshore. Uma estratégia que poderá posicionar a indústria nacional para a replicação da experiência noutros países, como aliás aconteceu – e com sucesso – no cluster eólico, representando um impacto económico bastante positivo para Portugal.
Bernardo Silva, investigador sénior e responsável pela área de Energias Renováveis do INESC TEC