O Oceano sempre representou uma das fronteiras mais complexas do conhecimento humano. Cobrindo mais de 70% da superfície terrestre, a sua imensidão alberga não só ecossistemas vitais para o equilíbrio do planeta, como também ativos económicos e infraestruturas críticas — de cabos submarinos de dados a redes de energia offshore — cruciais para a sociedade moderna. Hoje, num cenário mundial marcado por crescentes tensões geopolíticas e pela urgência da sustentabilidade, a capacidade de observar, proteger e operar no mar de forma contínua deixou de ser uma vantagem para se tornar numa necessidade imperativa.
É neste contexto que a Robótica Marinha surge como uma tecnologia verdadeiramente versátil e disruptiva. A transição do paradigma tradicional de exploração — dependente de campanhas oceânicas pontuais e dispendiosas — para a presença autónoma, persistente e em rede está a revolucionar a investigação e a gestão dos oceanos. Robôs autónomos e sistemas não habitados passam a atuar como sentinelas permanentes, capazes de recolher dados em tempo real, monitorizar a biodiversidade e assegurar a integridade de infraestruturas marítimas.
Trata-se de uma abordagem eminentemente transversal e de uso dual/civil. A mesma tecnologia autónoma que avalia o impacto das alterações climáticas ou mapeia o leito marinho para conservação serve igualmente para detetar anomalias, reforçar a segurança marítima e garantir a soberania territorial nas vastas zonas económicas exclusivas (ZEE), como a portuguesa.
Na linha da frente desta transformação tecnológica está a investigação em Robótica e Sistemas Autónomos do INESC TEC. Superar as barreiras do mar profundo exige engenharia de ponta: pressões extremas, ausência de sinal GNSS/comunicações eletromagnéticas e limitação de autonomia energética são apenas alguns dos desafios diários da exploração abaixo dos mil metros. Respondendo a estas complexidades, o INESC TEC tem desenvolvido soluções robóticas inovadoras — desde veículos aéreos, de superfície e submarinos até sistemas cooperativos —, levando a ciência portuguesa do laboratório ao Atlântico Profundo.
Exemplo paradigmático desta visão é a PETRA, o nosso novo Long-Range Deep-Sea Logistic AUV. Projetada para operar a profundidades de até 6000 metros e permanecer de forma autónoma no fundo do mar durante semanas, o veículo autónomo submarino (AUV) PETRA vem responder a uma lacuna crítica nos panoramas nacional e internacional. Ao funcionar como uma plataforma para apoio logístico, monitorização ambiental e vigilância submarina remota, a PETRA reduz drasticamente a dependência de grandes navios de investigação, baralhando o paradigma operacional e abrindo caminho para missões de longa duração nos oceanos.
Este AUV inovador será testado em breve a 1000 metros de profundidade, em pleno Oceano Atlântico, em testes nos quais se verificará, entre outras valências, a sua capacidade de colocação, reposicionamento e recolha de pequenos “landers-laboratório”, robôs destinados à recolha de dados oceânicos a grandes profundidades. Acreditamos que este tipo de veículos representa uma mudança de paradigma na forma como exploramos e monitorizamos os nossos mares.
Garantir um oceano sustentável, resiliente e seguro exige mais do que ambição: exige tecnologia autónoma e madura, capaz de agir onde o ser humano não consegue chegar. No INESC TEC, continuamos empenhados em desenhar essa nova era da Robótica Marinha — onde o conhecimento científico e a soberania tecnológica navegam lado a lado.
José Miguel Almeida, investigador sénior e coordenador da área de Robótica e Sistemas Autónomos do INESC TEC